
A violência é um dos maiores desafios enfrentados pelo Brasil. Diariamente, famílias convivem com o medo da criminalidade, enquanto municípios, estados e o governo federal buscam alternativas para fortalecer a segurança pública. Mas uma pergunta precisa entrar definitivamente nesse debate: até que ponto estamos investindo na educação como instrumento de prevenção à violência?
Quando se fala em segurança pública, a primeira imagem que vem à cabeça é a presença policial, o patrulhamento ostensivo, o combate ao tráfico de drogas e a repressão ao crime organizado. São ações fundamentais para a proteção da sociedade. Entretanto, combater o crime depois que ele acontece não pode ser a única estratégia de um país que deseja construir um futuro mais seguro.
É necessário compreender que a segurança pública também começa muito antes da ocorrência policial. Começa na infância, no ambiente familiar, na escola, na convivência comunitária e nas oportunidades oferecidas aos jovens.
Uma sociedade que investe na formação de suas crianças e adolescentes fortalece não apenas o conhecimento, mas também a cidadania, a responsabilidade, a capacidade de resolver conflitos e as perspectivas de futuro.
A educação não substitui a polícia. Mas uma educação de qualidade pode ajudar a prevenir situações que, no futuro, exigiriam a intervenção policial.
A escola como primeira linha de prevenção
A escola não deve ser vista apenas como um espaço destinado ao ensino de português, matemática, história e geografia. Sua missão também envolve preparar cidadãos capazes de conviver em sociedade, respeitar regras, reconhecer direitos e cumprir deveres.
É dentro do ambiente escolar que muitos jovens aprendem a lidar com diferenças, frustrações, responsabilidades e conflitos.
Quando a escola oferece uma formação consistente, acompanhamento pedagógico, atividades esportivas, cultura e orientação para a vida, amplia as oportunidades de desenvolvimento e fortalece vínculos de proteção.
A própria UNESCO, em análise publicada em setembro de 2026, destaca que experiências escolares positivas e bons resultados de aprendizagem podem atuar como fatores de proteção contra a criminalidade. A organização também aponta evidências de que programas de mediação de conflitos e desenvolvimento socioemocional podem reduzir comportamentos agressivos.
Isso não significa afirmar que uma pessoa com baixa escolaridade se tornará criminosa. A criminalidade possui causas complexas e não pode ser explicada exclusivamente pela falta de educação.
Entretanto, oferecer educação de qualidade, oportunidades e perspectivas profissionais é uma forma concreta de diminuir vulnerabilidades e fortalecer o desenvolvimento social.
O abandono escolar e o risco de perdermos nossos jovens
Um dos problemas que merecem atenção especial dos gestores públicos é o abandono escolar.
Quando um adolescente deixa de frequentar a escola, não perde apenas conteúdo pedagógico. Dependendo das condições familiares e sociais, pode perder também uma importante rede de proteção, convivência e orientação.
Em comunidades marcadas pela presença do tráfico de drogas e pela atuação de organizações criminosas, o poder público precisa oferecer alternativas reais para que os jovens não enxerguem a criminalidade como seu único caminho de reconhecimento, pertencimento ou renda.
O UNICEF reconhece a importância da permanência escolar e desenvolve, em parceria com outras instituições, a estratégia Busca Ativa Escolar, destinada a identificar crianças e adolescentes fora da escola ou em risco de abandono.
Não basta construir escolas. É necessário garantir que nossos alunos entrem, permaneçam, aprendam e concluam seus estudos com dignidade.
Segurança pública também é responsabilidade da educação
Existe uma visão equivocada de que a segurança pública começa e termina nas secretarias de Segurança e nas instituições policiais.
Na realidade, uma política moderna de prevenção à violência precisa envolver diferentes setores da administração pública.
A Secretaria de Educação deve atuar na prevenção do abandono escolar, na promoção da convivência e no desenvolvimento dos estudantes. A Assistência Social precisa identificar e acompanhar famílias em situação de vulnerabilidade. A Saúde deve oferecer atendimento a crianças e adolescentes que enfrentam sofrimento psicológico ou situações de violência.
As forças policiais, por sua vez, devem continuar exercendo suas atribuições de proteção da população, prevenção de delitos, investigação e enfrentamento à criminalidade, respeitando suas competências legais.
O Conselho Tutelar, os órgãos de proteção e as famílias também desempenham funções indispensáveis nesse processo.
O UNICEF defende justamente essa atuação integrada, destacando que as escolas precisam estar conectadas às redes de proteção para identificar situações de violência e ajudar a interromper seus ciclos.
PROJETO: EDUCAR PARA PROTEGER — ESCOLA, FAMÍLIA E SEGURANÇA PÚBLICA
Diante dessa realidade, apresento, como educador Tio Marcílio, uma proposta que pode servir de referência para gestores municipais, estaduais e federais.
O projeto Educar para Proteger tem como objetivo transformar as escolas em centros de formação cidadã, prevenção à violência e fortalecimento dos vínculos entre estudantes, famílias e comunidade.
A iniciativa pode começar como um projeto-piloto nas escolas públicas, especialmente em bairros com maiores índices de vulnerabilidade social e dificuldades de permanência escolar.
Sete pilares para transformar a educação em uma aliada da segurança
1. Educação para cidadania e responsabilidade
Trabalhar direitos, deveres, respeito às leis, ética, convivência social, prevenção ao bullying e solução pacífica de conflitos, com atividades adequadas a cada faixa etária.
2. Escola e família trabalhando juntas
Promover encontros regulares com pais e responsáveis, oficinas de orientação familiar e acompanhamento de estudantes que apresentem dificuldades de frequência ou convivência.
3. Prevenção à violência e aproximação comunitária
Realizar palestras educativas com profissionais da segurança pública, educadores e especialistas, abordando prevenção ao recrutamento pelo crime, riscos das drogas, violência doméstica e proteção de crianças e adolescentes, sem transformar a escola em ambiente de vigilância policial.
4. Esporte, cultura e atividades no contraturno
Desenvolver oficinas esportivas, música, teatro, tecnologia e leitura, criando oportunidades de aprendizagem, pertencimento e convivência saudável fora do horário regular das aulas.
5. Formação profissional e oportunidades
Estabelecer parcerias com instituições de ensino técnico, empresas e organizações sociais para oferecer orientação profissional, cursos introdutórios, preparação para o primeiro emprego e acesso a programas de aprendizagem.
6. Apoio psicológico e rede de proteção
Criar fluxos de acolhimento e encaminhamento de estudantes em sofrimento ou vítimas de violência, em parceria com equipes de saúde, assistência social e órgãos de proteção, respeitando a privacidade dos alunos.
7. Combate à evasão e acompanhamento de resultados
Monitorar frequência, aprendizagem, abandono escolar, conflitos e participação familiar, adotando medidas de busca ativa e avaliando periodicamente os resultados do programa.
Como colocar o projeto em funcionamento?
O projeto pode ser desenvolvido inicialmente durante um ano letivo, com participação das secretarias de Educação, Segurança, Saúde e Assistência Social, de acordo com as competências de cada esfera de governo.
Etapa
Prazo proposto
Ação
Diagnóstico
1º mês
Identificar necessidades das escolas e dos territórios
Planejamento
2º mês
Formar equipe e definir parcerias
Implantação
3º ao 5º mês
Iniciar oficinas, acompanhamento e atividades
Desenvolvimento
6º ao 10º mês
Ampliar ações e envolver famílias
Avaliação
11º e 12º mês
Medir resultados e decidir sobre expansão
A avaliação deve considerar indicadores educacionais e de proteção, sem atribuir automaticamente ao projeto eventuais mudanças nos índices gerais de criminalidade. Uma redução de crimes em determinado bairro, por exemplo, pode depender também de fatores econômicos, policiais e sociais.
O que os municípios, estados e o governo federal podem fazer?
Nos municípios, as prefeituras podem fortalecer a educação infantil e o ensino fundamental, promover atividades no contraturno, organizar ações de busca ativa e integrar as escolas aos serviços municipais de proteção.
Nos estados, os governos podem atuar principalmente por meio das redes estaduais de ensino, da formação profissional, de programas voltados à juventude e de políticas de prevenção à violência articuladas aos órgãos de segurança pública.
No governo federal, é possível ampliar o apoio técnico e financeiro, incentivar programas nacionais de prevenção, promover pesquisas e avaliações e apoiar iniciativas de cooperação entre as diferentes esferas administrativas.
O sucesso dependerá não apenas de recursos financeiros, mas de planejamento, continuidade administrativa, valorização dos professores e participação efetiva da sociedade.
A educação precisa ser prioridade, não apenas promessa eleitoral
O Brasil precisa superar a cultura de discutir educação e segurança pública apenas durante as campanhas eleitorais.
Não é suficiente prometer mais escolas, mais viaturas ou novos programas sem estabelecer metas, orçamento, acompanhamento e responsabilidade pelos resultados.
O professor precisa ser valorizado. A escola deve possuir estrutura adequada. As famílias precisam participar. Os jovens devem encontrar oportunidades reais de crescimento.
Ao mesmo tempo, os profissionais de segurança pública precisam de treinamento, equipamentos, inteligência e condições adequadas para enfrentar a criminalidade.
Educação e segurança não devem disputar espaço nas prioridades governamentais. São políticas complementares.
A presença policial é indispensável para combater delitos e proteger a população. A educação, quando acompanhada de políticas sociais e oportunidades, pode contribuir para reduzir os fatores que favorecem a violência ao longo do tempo.
A reflexão do educador Tio Marcílio
Como educador, acredito que uma das maiores demonstrações de responsabilidade de um governante é sua capacidade de pensar nas próximas gerações.
Não podemos continuar aceitando que crianças cresçam sem oportunidades, que adolescentes abandonem os estudos sem acompanhamento e que famílias enfrentem sozinhas os desafios da violência.
Também não podemos permitir que a escola seja tratada apenas como um prédio onde os alunos recebem conteúdos e depois retornam para casa.
A escola precisa ensinar, acolher, orientar, proteger e preparar para a vida.
Precisamos de policiais nas ruas, professores valorizados nas salas de aula, famílias participando da educação dos filhos e governantes comprometidos com resultados.
A segurança pública é uma necessidade imediata. A educação é parte fundamental da construção de uma sociedade mais segura no longo prazo.
Não existe solução mágica para a criminalidade. Mas existe um caminho responsável: investir simultaneamente na repressão qualificada ao crime, na prevenção da violência e na formação das novas gerações.
Se queremos municípios mais seguros, estados mais desenvolvidos e um Brasil com menos violência, precisamos começar a transformação desde os primeiros anos de vida.
Porque combater o crime é necessário. Mas oferecer aos nossos jovens oportunidades para construir uma vida longe da criminalidade também é uma obrigação do poder público.
E deixo uma pergunta aos prefeitos, governadores, parlamentares e ao presidente da República:
Quanto estamos dispostos a investir hoje na educação para construir o país mais seguro que desejamos amanhã?
Tio Marcílio
Educador e colunista
Artigo de opinião e proposta de política pública. O projeto Educar para Proteger é uma sugestão apresentada nesta coluna, não um programa governamental já instituído.
Referências de apoio: UNESCO, What are the links between education and crime reduction? (2026); UNICEF Brasil, Educação que Protege; UNICEF e Undime, Busca Ativa Escolar e a proteção contra as violências (2024).
